Ovos de Serpente
“A fotomontagem dada de Berlim”
Richard Huelsenbeck (1892-1974), protagonista do dada de Zurique, chegou à cidade em 1917, quando Grosz e Heartfield já haviam iniciado experiências com montagens. De fato, a sátira e a fúria contra aquela sociedade alemã apareciam desde 1915 em desenhos de Grosz, e em revistas e livros provocativos (1917) contra o militarismo, a guerra e os grupos que os apoiavam e ao Reich.
Sob o impacto da Revolução Bolchevique (1917) e nos instantes que antecederam a Revolução de Novembro alemã (1918) e o fim da guerra, foi criado o Club Dada Berlim. A anti-arte dada queria ser um ataque à arte dita “autônoma” - sacralizada, ausente da vida cotidiana, burguesa, contrapondo-lhe a realidade e sua falta de sentido. Com os primeiros movimentos da revolução alemã e a instalação da República de Weimar, parte dos dadaístas berlinenses tomaram o partido da esquerda espartaquista, e a (anti-)arte passou a fundar-se cada vez mais na política. Era o momento em que formavam-se as milícias de ultra-direita, cujos integrantes assassinaram Rosa Luxemburg e Karl Liebeknecht, em janeiro de 1919.
A descoberta da técnica da fotomontagem – ou sua invenção – , foi motivo de querela que pouco interessa. Relevante é que todos concordassem com sua função: ao partir de fragmentos de imagens, ela permitia novas possibilidades de re-significação e questionamento da realidade e sua representação. A fotomontagem parece ter sido a resposta visual à necessidade de subverter a arte “tradicional” – utilizando-se de fragmentos de publicações de massa, de “composições” caóticas, satíricas; e de expor os escombros a que foram reduzidos cidades, corpos, relações sociais, existências, pelas experiências recentes.
Se, por um lado, a fotomontagem foi domesticada e incorporada, como imagem da vivência moderna, à indústria cultural e à propaganda empresarial, até mesmo à nazista, por outro, a experiência radical dada permitiu a John Heartfield desenvolver suas fotomontagens da história contemporânea, a partir de 1924.
“NEP a contrapelo: revisitando o Clube dos Trabalhadores de Rodchenko”
A difusão da ciência e da técnica gerada pelo capitalismo, segundo a perspectiva de Lênin, constituía um elemento imprescindível para o estabelecimento de uma base de produção, que pudesse abrir terreno para a transição socialista. Nesse sentido, fazia-se necessário adaptar tais formas de produção ao contexto soviético, aproveitando seus aspectos mais progressistas. Os organizadores do processo produtivo, os especialistas no conhecimento, eram de origem burguesa e apenas eles poderiam, no contexto da implementação da NEP, realizar o projeto de reorganização do trabalho.
Na contramão de tal tendência, a vanguarda construtivista procurou desenvolver uma práxis artística capaz de estabelecer uma nova relação entre o campo artístico, a experiência do dia a dia do trabalhador e as relações sócio-políticas que permeavam tal cotidianidade. O artista revolucionário deveria se tornar um agente transformador das práticas coletivas do setor produtivo, incumbido de reconfigurar os meios de produção, a fim de criar novos objetos dissociados dos modelos de produção capitalistas.
O Clube Dos Trabalhadores (1924), de Rodchenko, foi um projeto de construção funcional, elaborado para a Éxposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes (realizada em Paris em 1925) e talvez tenha sido uma das experiências mais bem sucedidas da metodologia construtivista. De acordo com a perspectiva da historiadora Christina Kiaer, o clube de Rodchenko foi um exemplo da maneira como o construtivismo “imaginou uma forma de modernidade, que abraçou a tecnologia e a eficiência dos sistemas de regulamentação da vida urbana [...] sem conceber a forma-mercadoria, que manchara a transparência [dos objetos tecnológicos e funcionais] com as associações e as fantasias eróticas intermináveis da moda [e da subjetividade consumista, própria do capitalismo]”.
Av. Prof. Lineu Prestes, 159, Cid. Universitária USP




